Uma casa de chá

A computação comercial na Inglaterra começou em um lugar inusitado.


Em 1947, foi tomada uma decisão pioneira: tentar construir um computador que pudesse automatizar o trabalho de escritório. Seria o primeiro computador de uso comercial do mundo. Essa decisão criativa partiu de uma fonte surpreendente: a J. Lyons, empresa proprietária de uma rede de casas de chá. As operações da Lyons envolviam grande número de pequenas transações e, para que o negócio fosse rentável, era necessário manter a contabilidade sob rígido controle. Mesmo depois da devastação causada pela Segunda Guerra Mundial, a empresa empregava mais de mil funcionários para controlar a contabilidade das casas de chá'. Na verdade, a Lyons já tinha uma longa tradição de inovações nos métodos administrativos: introduziu o uso de máquinas de calcular em suas lojas em 1896 e, por volta de 1930, fazia experiências registrando transações em microfilmes. Nessa época, criou também o primeiro centro de pesquisas de administração para introduzir novos métodos operacionais. A Lyons costumava enviar periodicamente representantes ao exterior para investigar novos desenvolvimentos que lhe pudessem ser úteis e, em 1947, dois funcionários foram aos Estados Unidos conhecer o novo "cérebro eletrônico". A descoberta mais proveitosa dos dois foi saber que um computador estava sendo construído bem mais perto de casa, em Cambridge, na própria Inglaterra. A diretoria da Lyons determinou que fosse estudada a possibilidade de a empresa desenvolver seu próprio computador. A estimativa feita indicou que o computador poderia ser construído com um investimento de 135.000 dólares e que ele possibilitaria uma redução de 67.000 dólares anuais nos custos. Consequentemente, em outubro de 1947, a Lyons começou a trabalhar no projeto. O empreendimento era muito arrojado, pois na época o computador Wienede Cambridge também estava em fase de projeto. A Lyons

cedeu uma verba de 5.000 dólares à Universidade de Cambridge para ajudar a construir o aparelho que se tomou conhecido como EDSAC (Electronic Delay Storage Automatic Computer). A verba foi usada para comprar válvulas excedentes do governo. Em 1949,o EDSAC completou com sucesso seu primeiro trabalho - calculou uma tabela de números primos. A Lyons analisou os problemas que seu computador teria de resolver, fazendo um esboço das rotinas que seriam necessárias. Estes estudos transformaram-se nos projetos para os primeiros programas e ajudaram a determinar o design do hardware. Logo, porém, ficou evidente que um computador de uso comercial era bem diferente de uma maquina destinada a pesquisas na universidade. O EDSAC fora projetado para executar operações matemáticas longas e complexas com um input de poucos números, e um computador de uso comercial tinha de resolver problemas que eram exatamente o oposto. As operações matemáticas requeridas eram mínimas - apenas somas e multiplicações -, mas a quantidade de informação processada, enorme. O LEO (Lyons Electronic Office) foi, portanto, projetado de acordo com essas necessidades, mas só se tomou operacional em 9 de fevereiro de 1954, quando calculou a folha de pagamento dos 1.700 membros da equipe. Ele realizava em 1,5 segundo o trabalho que anteriormente um funcionário levava 8 minutos para fazer. O equipamento foi um grande sucesso para a Lyons, cuja direção logo percebeu que uma só maquina seria insuficiente. O projeto despertou grande interesse no mercado e a Lyons acabou fundando uma empresa para aproveitar o know-how adquirido na fabricação e comercialização de computadores. A Leo Computers foi muito bem-sucedida e passou a produzir uma série de versões aperfeiçoadas do LEO. A empresa foi absorvida em 1963 pela English Electric Company.

 

 

Escritório eletrônico

Ao contrário de todos os computadores anteriores, que se destinavam a aplicações científicas ou militares, o LEO 1 foi projetado para executar apenas operações aritméticas simples, mas com milhares de itens ou transações por dia.

 

 

Aplicação pioneira

A tradicional casa de chá Lyons não parece o lugar mais apropriado para se fazer a primeira aplicação comercial importante de computadores, mas foi esse ramo de negócio, com seu número considerável de pequenas transações, que se prestou ao emprego de métodos computadorizados.