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                         “O peregrino”

 

 

                                                 Num leito calmo

Em meio a

Um alvor prateado...

O peregrino,

Exausto, queria dormir.

Flutuando em ternas

Ondas de luz,

Esse alvor efêmero

Esboroava

No bosque escuro.

Sombras lugentes

Silenciam o seu planar.

Sussurros  convidam

O peregrino,

Para que, quieto,

Adormeça

Na noite sagrada.

Enquanto isso,

No éter, pela esteira

De luzes esquecidas...

A carroça flamejante

Guiava o anjo do Senhor.

Sua nave majestosa

Deixava cair seus

Clarões por sobre o bosque,

Quais pirilampos

Em dança celeste.

Pelas trilhas desconhecidas

Das sombras virgens,

O anjo deslizou,

Procurando por

Aquele que tinha

Fome e frio.

Anjo...

Bela criação!

Face de beleza

Nunca vista antes...

Pele de

Jasmim doce...

Lábios quais

Pétalas de rosas...

Teu olhar

Incandescente

Enche o viajante

De eterna adoração.

Fronte coroada...

Deixe o coração

Deste pobre peregrino

Se incendiar por ti.

Tendo percorrido

Longas distâncias,

Esse mortal tem

A tristeza infiltrada

Em sua alma.

Tormentos e lamúrias...

Visões e medos noturnos.

As serenatas tornaram-se

Lúgubres melodias,

Para esse peregrino

Perdido num funesto encantamento.

Ele teve

Suas esperanças roubadas.

Esperança...

Jóia perdida no

Fundo do oceano antigo...

O metal das lâminas

Corta seu último suspiro.

No desolado túmulo oco,

Jazem teus filhos

E tua esposa.

Oh!...peregrino

Que seja maldito aquele

Que te deixou

À deriva.

Mas a semente da fé

Não morrerá

Naquela cidade,

Onde deixastes teus

Filhos amados

E tua esposa amada.

Como o fogo

Que nunca se apaga,

A fé

Queimará na frente

Dos olhos incrédulos,

Que um dia

Decretaram teu exílio.

Adormecido,

Não pode notar

Que a mão do Senhor

Te enviou

O consolo de um anjo.

Anjo...

Olhos abençoados,

Onde nem um mal reside...

Semeie a perfeição

No verde sem fim!

Abre as veredas

E sorria para essa

Criatura torcida,

Assim como um dia

Sorriu para as belas.

Despe a alma dele

Do veneno da existência,

E dê, calmamente,

O som da tua harpa.

Cobre o espírito dele

De silêncio gentil,

E tira o véu

Que o impede a visão.

Só a tua voz abençoada

Salvará

Essa ovelha que se desviou do caminho.

Mais leve que o ar,

Teu manto alvo cinge a noite,

E os pássaros anunciam

Tua presença sagrada.

Não há vaidade

Em tuas asas,

Assim como

Não há limite em teus esforços.

Seja o abrigo...

Seja o conforto...

Quando nada mais

Resta,

Que possa consolar

As lágrimas de

Um filho do Senhor.

Ergue flores de ouro...

Ordena que corra

O perfume mais suave

Pelos cantos insalubres.

Toma o peregrino pelas mãos

E permita que

Ele seja criança

Uma vez mais.

Os sonhos

Das noites ancestrais

Serão

A estrada que

Os levará

Por aléias cobertas

De saibro.

Nunca o peregrino

Caminhará em vão,

Tendo tuas sandálias

Acompanhando-o

Nessa jornada

Interminável.

Serpentes

Insinuam movimentos

Em segredo.

O crepúsculo

As traz sem convite,

A fim de formar

Chagas em teus pés.

Um turbilhão

De influências nefandas,

Castigarão tua fronte.

A alma errante

Chora lágrimas sem fim,

Diante de

Tão funérea rota.

Mas antes que

A testa se gaste e esmoreça,

A voz doce

Entoará hinos perfeitos,

Que silenciarão

A lástima e a desordem.

Essa voz branda

É a mesma que,

Na pálida melancolia

Cantou para os teus filhos,

Quando esses dormiam

O sono dos primeiros dias.

O som flutuante

Das cordas trigueiras,

Conduz o peregrino

Ao jardim das delícias ...

Onde o vento suave

Beija rosas de ouro cintilante.

Nuvens de pássaros

Em asas fulgurantes,

Encontram seu refúgio

Na alma do homem,

E borboletas cobrem seus cabelos,

Enfeitando-os de coroas púrpuras.

O farol inconstante

Ascende uma amorosa homenagem.

A brisa clemente,

Ondula, perto de um rouxinol,

Que brinca

No amor casto,

Que a todos abranda.

Com seu manto roto e estragado,

O doce amigo

Nada no lago,

Qual cisne que voeja.

Ansiando que Deus o receba,

E limpe seus transtornos,

Ele se banha da cristã verdade,

E do sol puro,

Que gentil se oferece.

“Ama-me fielmente!”...

ele clama.

No prado verde,

O coro dos anjos florados

Exaltam

O nascer do dia.

Os pássaros

Gorjeiam ao redor

Das ninféias azuis.

E o anjo ordena:

“Curem a alma em aflição...

faz revelar o amor em seu semblante.”

Que possa o céu lhe conceder

Uma alva roupa de prata,

Para que o peregrino

Possa ser retirado

Das cinzas,

E ser levado

Aos braços do Altíssimo.

 

 

 

 

 

 

 

“Manhã”

 

 

Permita que a mão  protetora

Toque tua fronte.

Com lindos pés dourados,

A aurora vem, lentamente,

Do reino sem fim

Do Senhor.

Nesse excelso interlúdio,

Em que o sol te acaricia,

Despe tua alma

E mergulha nas ondas

Do fulgor celeste.

Toma flores e harpas

Como arma.

Se desfaça das feridas e dores,

Abraçando

Esse instante sublime,

Que sorri, majestoso...

Descortinando um nascente desafio.

De graças e levanta!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                        “Tarde”

 

                     Na floresta verdejante

Rezava o sonhador.

O fogo rubro

Da tarde amorosa,

Aquecia sua face cansada,

Que vislumbrava

As catedrais mais ricas,

Onde se ouvia

As liras do Senhor.

Pois ainda que seus sonhos

Sejam abalados e desfeitos

Como diáfano véu que desintegra,

Seus olhos,

Sempre em vigília,

Não se entregarão

À fadiga inebriante.

Pois terá sempre

Em teu trabalho caprichoso,

A misericórdia e o ombro de

Deus ,

Que enxugará teu suor,

E te fará descansar

Nas campinas inefáveis.

 Reza sempre,

Sonhador...

Enquanto não chegam

As horas tranqüilas.

 

 

“Noite”

 

 

Ergue-se

A imensidão,

Diante de minha alma incrédula.

No palácio celeste

Do Senhor,

Dançam luzes

Perdidas na noite dos tempos.

Deitado na rocha,

Frente ao mar revolto,

Meu coração cansado chorava,

Sem repouso.

Então um sopro de prata

Deitou-se ao meu lado

Na forma de um anjo perfeito.

Antes que o mar furioso

Galgasse meu corpo tosco,

O anjo do Senhor

Guiou-me até

Os confins da terra,

Onde havia uma humilde

Morada santa.

Fez desperçar o frio e o perigo eminente,

E com pano alvo,

Enxugou as lágrimas copiosas,

Que vertiam de meus olhos sombrios.

Longe da correnteza,

Em tão doce paragem,

Me ajoelhei

E ergui meus olhos

Para o céu sem fim,

Enquanto o anjo

Se misturava,

Tão belo,

Junto às estrelas.

Pude então dormir.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Gratidão”

 

 

 

Diante da imagem

Da virgem santíssima,

Eu me ajoelhei.

E diante de

Tão amada face,

Recordei todos os bens recebidos.

Poucas vezes dei graças,

Quando tanto recebi,

Sem o merecer.

Minha benfeitora celeste

Sempre brilhará

Em meu espírito,

Me dando pão e abrigo,

Bênçãos e luzes, que...

Nunca haverão de se apagar.